2 Os números
naturais
Os egípcios criam os símbolos
(?)
Por volta do ano 4.000 a.C., algumas comunidades
primitivas aprenderam a usar ferramentas e armas
de bronze. Aldeias situadas nas margens de rios
transformaram-se em cidades. A vida ia ficando
cada vez mais complexa. Novas actividades iam
surgindo, graças sobretudo ao desenvolvimento do
comércio.
Os agricultores passaram a produzir alimentos em
quantidades superiores às suas necessidades. Com
isso algumas pessoas puderam dedicar-se a outras
actividades, tornando-se artesãos, comerciantes,
sacerdotes, administradores... |
|
Como consequência desse
desenvolvimento surgiu a escrita. Era o fim da Pré-História
e o começo da História.
Os grandes progressos que marcaram o fim da Pré-História
verificaram-se com muita intensidade e rapidez no
Egipto.
Para fazer os projetos de construção das pirâmides
e dos templos, o número concreto não era nada
prático. |
|
| Ele
também não ajudava muito na resolução dos difíceis
problemas criados pelo desenvolvimento da indústria
e do comércio. |
Como efectuar cálculos rápidos
e precisos com pedras, nós ou riscos num osso?
Foi partindo dessa necessidade imediata que estudiosos do
Antigo Egipto passaram a representar a quantidade de
objetos de uma colecção através de desenhos os
símbolos.
A criação dos símbolos foi um passo muito importante
para o desenvolvimento da Matemática.
Na Pré-História, o homem juntava 3 bastões com 5
bastões para obter 8 bastões.
Hoje sabemos representar esta operação por meio de símbolos.
3
+ 5 = 8
Muitas vezes não sabemos nem que objetos estamos a somar.
Mas isso não importa: a operação pode ser feita da
mesma maneira. Mas como eram os símbolos que os egípcios
criaram para representar os números?
Contando
com os egípcios
Há mais ou menos 3.600 anos, o faraó do Egipto tinha um
súbdito chamado Aahmesu, cujo nome significa Filho
da Lua.
Aahmesu ocupava na sociedade egípcia uma posição muito
mais humilde que a do faraó: provavelmente era um
escriba. Hoje Aahmesu é mais conhecido do que muitos
faraós e reis do Antigo Egipto. Entre os cientistas, ele
é chamado de Ahmes. Foi ele quem escreveu
o Papiro Ahmes.
 |
O papiro Ahmes é um antigo manual de Matemática.
Contém 80 problemas, todos resolvidos. |
A maioria envolve
assuntos do dia-a-dia, como o preço do pão, a
armazenagem de grãos de trigo, a alimentação do gado.
Observando e estudando
como eram efetuados os cálculos no Papiro Ahmes, não
foi difícil aos cientistas compreenderem o sistema de
numeração egípcio. Além disso, a decifração dos hieróglifos
inscrições sagradas das tumbas e
monumentos do Egipto no século XVIII também foi
muito útil.
O sistema de numeração egípcio baseava-se em sete números-chave:
1
10 100 1.000 10.000 100.000 1.000.000
Os egípcios usavam símbolos para representar esses números.
Um traço vertical representava 1 unidade:
Um osso de calcanhar invertido representava o número
10:
Um laço valia 100 unidades:
Uma flor de lótus valia 1.000:
Um dedo dobrado valia 10.000:
Com um girino os egípcios representavam 100.000
unidades:
Uma figura ajoelhada, talvez representando um
deus, valia 1.000.000: |
 |
Todos os outros números eram escritos combinando os números-chave.
Na escrita dos números que usamos actualmente, a ordem
dos algarismos é muito importante.
Se tomarmos um número, como por exemplo:
256
e trocarmos os
algarismos de lugar, vamos obter outros números
completamente diferentes:
265
526 562 625 652
 |
Ao escrever os números, os egípcios não se
preocupavam com a ordem dos símbolos. Observe no
desenho que apesar de a ordem dos símbolos não
ser a mesma, os três garotos do Antigo Egito estão
escrevendo o mesmo número:
45 |
Os
papiros da Matemática egípcia
Quase tudo o que sabemos sobre a Matemática dos antigos
egípcios baseia-se em dois grandes papiros: o Papiro
Ahmes e o Papiro de Moscovo.
O primeiro foi escrito por volta de 1.650 a.C. e tem
aproximadamente 5,5 m de comprimento e 32 cm de largura.
Foi comprado em 1858 por um antiquário escocês chamado
Henry Rhind. Por isso é conhecido também como Papiro
de Rhind. Actualmente encontra-se no British
Museum, de Londres.
O Papiro de Moscovo é uma estreita tira de 5,5 m de
comprimento por 8 cm de largura, com 25 problemas.
Encontra-se actualmente em Moscovo. Não se sabe nada
sobre o seu autor.
A técnica
de calcular dos egípcios
Com a ajuda deste sistema de numeração, os egípcios
conseguiam efectuar todos os cálculos que envolviam números
inteiros.
Para isso, empregavam uma técnica de cálculo muito
especial: todas as operações matemáticas eram
efectuadas através de uma adição.
Por exemplo, a multiplicação 13 * 9 indicava que
o 9 deveria ser adicionado treze vezes.
13
* 9 = 9 + 9 + 9 + 9 + 9 + 9 + 9 + 9 + 9 + 9 + 9 + 9 + 9
A tabela abaixo ajuda a compreender como os egípcios
concluíam a muliplicação:
|
Número de
parcelas |
Resultado |
| 1 |
9
|
| 2
|
18
|
| 4 |
36
|
| 8 |
72
|
Eles buscavam na tabela um total de 13 parcelas;
era simplesmente a soma das três colunas destacadas:
1
+ 4 + 8 = 13
O resultado da multiplicação 13 * 9 era a soma
dos resultados desta três colunas:
9
+ 36 + 72 = 117
Os egípcios eram realmente muito habilidosos e criativos
nos cálculos com números inteiros.
Mas, em muitos problemas práticos, eles sentiam
necessidade de expressar um pedaço de alguma coisa através
de um número.
E para isso os números inteiros não serviam.
Descobrindo
a fração
Por volta do ano 3.000 a.C., um antigo faraó de nome Sesóstris...
... repartiu o solo do
Egito nas margens do rio Nilo entre os seus habitantes.
Se o
rio levava qualquer parte do lote de um homem, o faraó
mandava
funcionários examinarem e determinarem por medida
a
extensão exacta da perda.
Estas palavras foram escritas pelo historiador grego Heródoto,
há cerca de 2.300 anos.
O rio Nilo atravessa uma vasta planície.
Uma vez por ano, na época das cheias, as águas
do Nilo sobem muitos metros acima do seu leito
normal, inundando uma vasta região ao longo das
suas margens. Quando as águas baixam, deixam
descoberta uma estreita faixa de terras férteis,
prontas para o cultivo.
|
 |
Desde a Antiguidade, as águas do Nilo fertilizam os
campos, beneficiando a agricultura do Egipto. Foi nas
terras férteis do vale deste rio que se desenvolveu a
civilização egípcia.
Cada metro de terra era precioso e tinha de ser muito bem
cuidado.
Sesóstris repartiu estas preciosas terras entre uns
poucos agricultores privilegiados.
Todos os anos, durante o mês de Junho, o nível das águas
do Nilo começava a subir. Era o início da inundação,
que durava até Setembro.
Ao avançar sobre as margens, o rio derrubava as cercas
de pedra que cada agricultor usava par marcar os limites
do terreno de cada agricultor.
Usavam cordas para fazer a medição.
Havia uma unidade de medida assinalada na própria corda.
As pessoas encarregadas de medir esticavam a corda e
verificavam quantas vezes aquela unidade de medida estava
contida nos lados do terreno. Daí, serem conhecidas como
estiradores de cordas.
No entanto, por mais adequada que fosse a unidade de
medida escolhida, dificilmente cabia um número
inteiro de vezes no lados do terreno.
Foi por essa razão que os egípcios criaram um novo tipo
de número: o número fracionário.
Para representar os números fraccionários, usavam fracções.
As
complicadas fracções egípcias
Os egípcios interpretavam a fracção somente como uma
parte da unidade. Por isso, utilizavam apenas as fracções
unitárias, isto é, com numerador igual a
1.
Para escrever as fracções unitárias, colocavam um
sinal oval alongado sobre o denominador.
As outras fracções eram expressas através de uma soma
de fracções de numerador 1.
Os egípcios não colocavam o sinal de adição - +
- entre as fracções, porque os símbolos das operações
ainda não tinham sido inventados.
No sistema de numeração egípcio, os símbolos repetiam-se
com muita frequência. Por isso, tanto os cálculos com números
inteiros quanto aqueles que envolviam números fraccionários
eram muito complicados.
Assim como os egípcios, outros povos também criaram o
seu próprio sistema de numeração. Porém, na hora de
efectuar os cálculos, em qualquer um dos sistemas
empregados, as pessoas esbarravam sempre nalguma
dificuldade.
Apenas por volta do século III a.C. começou a formar-se
um sistema de numeração bem mais práctico e eficiente
do que os outros criados até então: o sistema de
numeração romano.
Contando
com os romanos
De todas as civilizações da Antiguidade, a dos romanos
foi sem dúvida a mais importante.
O seu centro era a cidade de Roma. Desde da sua fundação,
em 753 a.C., até ser ocupada por povos estrangeiros em
476 d.C., os seus habitantes enfrentaram um número
incalculável de guerras de todos os tipos. Inicialmente,
para se defenderem dos ataques de povos vizinhos; mais
tarde nas campanhas de conquista de novos territórios.
Foi assim que, pouco a pouco, os romanos foram
conquistando a península Itálica e o restante da Europa,
além de uma parte da Ásia e o norte de África.
Apesar de a maioria da população viver na miséria, em
Roma havia luxo e muita riqueza, usufruídas por uma
minoria rica e poderosa. Roupas luxuosas, comidas finas e
festas grandiosas faziam parte do dia-a-dia da elite
romana.
Foi nesta Roma de miséria e luxo que se desenvolveu e
aperfeiçoou o número concreto, que vinha sendo usado
desde a época das cavernas.
Como foi que os romanos conseguiram isso?
O
sistema de numeração romano
Os romanos foram espertos. Eles não inventaram símbolos
novos para representar os números; usaram as próprias
letras do alfabeto.
I
V X L C D M
Como será que eles combinaram estes símbolos para
formar o seu sistema de numeração?
O sistema de numeração romano baseava-se em sete números-chave:
I tinha o valor 1.
V valia 5.
X representava 10
unidades.
L indicava 50
unidades.
C valia 100.
D valia 500.
M valia 1.000.
Quando apareciam vários números iguais juntos, os
romanos somavam os seus valores.
II = 1 + 1 = 2
XX = 10 + 10 = 20
XXX = 10 + 10 + 10 = 30
Quando dois números diferentes vinham juntos, e o menor
vinha antes do maior, subtraíam os seus valores.
IV = 4 porque 5 - 1 = 4
IX = 9 porque 10 1
= 9
XC = 90 porque 100
10 = 90
Mas se o número maior vinha antes do menor, eles somavam
os seus valores.
VI = 6 porque 5 + 1 = 6
XXV = 25 porque 20 + 5 =
25
XXXVI = 36 porque 30 + 5 +
1 = 36
LX = 60 porque 50 + 10 =
60
|
Ao lermos o cartaz, ficamos a saber que o exercíto
de Roma fez numa certa época MCDV prisioneiros
de guerra. Para ler um número como MCDV, veja os
cálculos que os romanos faziam:
|
 |
Em primeiro lugar buscavam a letra de maior valor.
M = 1.000
Como antes de M não tinha nenhuma letra, buscavam a
segunda letra de maior valor.
D = 500
Depois tiravam de D o valor da letra que vem antes.
D C = 500
100 = 400
Somavam 400 ao valor de M, porque CD está depois e M.
M + CD = 1.000 + 400
= 1.400
Sobrava apenas o V. Então:
MCDV = 1.400 + 5= 1.405
Os
milhares
Como acabou de ver, o número 1.000 era
representado pela letra M.
Assim, MM correspondiam a 2.000 e MMM
a 3.000.
E os números maiores que 3.000?
Para escrever 4.000 ou números maiores que ele,
os romanos usavam um traço horizontal sobre as letras
que representavam esses números.
Um traço multiplicava o número representado abaixo dele
por 1.000.
Dois traços sobre o M davam-lhe o valor de 1 milhão.
O sistema de numeração romano foi adotado por muitos
povos. Mas ainda era difícil efectuar cálculos com este
sistema.
Por isso, matemáticos de todo o mundo continuaram a
procurar intensamente símbolos mais simples e mais
apropriados para representar os números.
E como resultado dessas pesquisas, aconteceu na Índia
uma das mais notáveis invenções de toda a história da
Matemática: O sistema de numeração decimal.
Afinal
os nossos números
|
No século VI foram fundados na Síria alguns
centros de cultura grega. Consistiam numa espécie
de clube onde os sócios se reuniam para discutir
exclusivamente a arte e a cultura vindas da Grécia.
Ao participar numa conferência num destes clubes,
em 662, o bispo sírio Severus Sebokt,
profundamente irritado com o facto de as pessoas
elogiarem qualquer coisa vinda dos gregos,
explodiu dizendo:
|
Existem outros povos
que também sabem alguma coisa! Os hindus,
por exemplo, têm valiosos métodos de cálculos.
São métodos
fantásticos! E imaginem que os cálculos são feitos
por apenas nove sinais!.
A
referência a nove, e não dez símbolos, significa que o
passo mais importante dado pelos hindus para formar o seu
sistema de numeração a invenção do zero
- ainda não tinha chegado ao Ocidente.
A ideia dos hindus de introduzir uma notação para uma
posição vazia um ovo de ganso, redondo
ocorreu na Índia, no fim do século VI . Mas
foram necessários muitos séculos para que esse símbolo
chegasse à Europa.
Com a introdução do décimo sinal o zero
o sistema de numeração tal qual o conhecemos hoje
estava completo.
Até chegar aos números que nós aprendemos a ler e
escrever, os símbolos criados pelos hindus mudaram
bastante.
Hoje, estes símbolos são chamados de algarismos
indo-arábicos.
Se foram os matemáticos hindus que inventaram o nosso
sistema de numeração, o que é que os árabes têm a
ver com isso?
E por que é que os símbolos
0 1 2 3
4 5 6 7 8 9
se
chamam algarismos?
Os árabes
divulgam ao mundo os números hindus
Simbad, o marujo, Aladim e sua lâmpada maravilhosa,
Harum al-Raschid são nomes familiares para quem conhece
os contos de As mil e uma noites. Mas
Simbad e Aladim são apenas personagens do livro, Harum
al-Raschid realmente existiu. Foi o califa de Bagdá, do
ano 786 até 809.
Durante o seu reinado os povos árabes travaram uma série
de guerras de conquista. E como prémios de guerra,
livros de diversos centros científicos foram levados
para Bagdá e traduzidos para a língua árabe.
Em 809, o califa de Bagdá passou a ser al-Mamum, filho
de Harum al-Rahchid.
Al-Mamum era muito vaidoso.
Dizia com toda a convicção.
Não
há ninguém mais culto em todos os ramos do saber do
que eu.
Como era um apaixonado da ciência, o califa procurou
tornar Bagdá o maior centro científico do mundo,
contratando os grandes sábios muçulmanos da época.
Entre eles
estava o mais brilhante matemático árabe de
todos os tempos: al-Khowarizmi.
Estudando os livros de Matemática vindos da Índia
e traduzidos para a língua árabe, al-Khowarizmi
surpreendeu-se a princípio com aqueles estranhos
símbolos que incluíam um ovo de ganso!
Logo, al-Khowarizmi compreendeu o tesouro que os
matemáticos hindus haviam descobertos. Com
aquele sistema de numeração, todos os cálculos
seriam feitos de um modo mais rápido e seguro.
Era impossível imaginar a enorme importância
que essa descoberta teria para o desenvolvimento
da Matemática. |
 |
Al-Khowarizmi decidiu contar ao mundo as boas nova.
Escreveu um livro chamado Sobre a arte hindu de
calcular, explicando com detalhes como
funcionavam os dez símbolos hindus.
Com o livro de al-Khowarizmi, matemáticos do mundo todo
tomaram conhecimento do sistema de numeração hindu.
Os símbolos 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9
ficaram conhecidos como a notação de al-Khowarizmi,
de onde se originou o termo latino algorismus.
Daí o nome algarismo.
São estes números criados pelos matemáticos da Índia
e divulgados para outros povos pelo árabe al-Khowarizmi
que constituem o nosso sistema de numeração decimal
conhecidos como algarismos indo-arábicos.
Os números
racionais
Com o sistema de numeração hindu ficou fácil escrever
qualquer número, por maior que ele fosse.
0
13 35 98 1.024 3.645.872
Como estes números foram criados pela necessidade prática
de contar as coisas da natureza, eles são
chamados de números naturais.
Os números naturais simplificaram muito o trabalho com números
fraccionários.
Não havia mais necessidade de escrever um número
fraccionário por meio de uma adição de dois fraccionários,
como faziam os matemáticos egípcios.
O número fraccionário passou a ser escrito como uma razão
de dois números naturais.
A palavra razão em matemática significa divisão.
Portanto, os números inteiros e os números fraccionários
podem ser expressos como uma razão de dois números
naturais. Por isso, são chamados de números
racionais.
A descoberta dos números racionais foi um grande passo
para o desenvolvimento da Matemática.
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